Defender a paz com ódio ainda é guerra

setembro 17, 2026

Nas últimas eleições brasileiras, famílias se dividiram. Amizades de décadas terminaram. Pessoas que se amavam pararam de se falar por causa de uma escolha nas urnas. E quem estava dos dois lados tinha absoluta certeza de que estava do lado certo. Esse é o sintoma mais revelador da polarização: a convicção de que o problema está sempre no outro.

Vivemos um momento crítico, não só no Brasil, mas em todo o planeta. Um momento de extrema polarização, amplificado pelas redes sociais, pelas mudanças climáticas, pela velocidade com que a informação circula e desinforma. Especialistas de diferentes áreas apontam que o período de agora até 2030 pode ser um dos mais transformadores da história humana, redefinindo nossa relação com o trabalho, com o dinheiro, com a forma de nos organizarmos em sociedade.

Diante disso, o ego coletivo experimenta uma sensação crescente de urgência, como se este fosse o momento definitivo, a hora em que cada um precisa escolher um lado e fazer algo. Mas se olharmos com mais amplitude, veremos que a humanidade sempre acreditou que a sua época era a mais decisiva da história. Nossa história é um longo movimento de ideologias, impérios que nascem e caem, revoluções que prometem tudo e entregam versões diferentes dos mesmos padrões. A consciência, diante disso, se move em outra direção e pergunta: quem é esse em você que quer escolher?

O problema nunca foi a política

Essa pergunta merece ser levada a sério, porque uma pessoa inconsciente pode defender a paz violentamente, pode lutar pela justiça cheia de ódio, pode falar de amor enquanto destrói quem pensa diferente, pode defender a democracia de forma autoritária. O problema nunca foi a política, mas sim a inconsciência.

Gandhi e Martin Luther King participaram profundamente da vida pública e foram figuras políticas de enorme impacto. Mas o que os tornava diferentes não era a causa que defendiam. Era a consciência a partir da qual agiam. A ação era uma consequência dessa consciência, e é por isso que atravessaram séculos.

O iogue moderno não faz da política uma nova religião, nem da espiritualidade uma fuga do mundo. Ele aprende a participar sem se perder, a agir sem reagir, a se posicionar sem precisar convencer o outro de que está errado. Porque quando um ativismo destrói a paz interior, quando a causa passa a justificar o ódio, quando o adversário deixa de ser um ser humano e vira um símbolo do que precisa ser destruído, não é mais a consciência que está na liderança. É a criança ferida. E ferida que lidera não transforma, repete o ciclo de sofrimento, com outra roupagem, o mesmo ciclo de violência que pretendia combater.

Quem em você está reagindo?

Observe o que acontece dentro de você quando o assunto político surge. Quem em você fica indignado, precisa escolher um lado, rebater, provar que está certo? Se você consegue identificar essa parte com honestidade e sem se julgar por ela, algo importante já começou a se mover.

A consciência produz uma qualidade diferente da reação automática. Você age intensamente, mas não reage. Você participa, mas não se identifica com o personagem que participa. Você pode perder uma eleição sem perder a serenidade, pode ver seu país atravessar uma crise sem perder a presença, pode defender aquilo que sua inteligência considera justo sem entregar sua consciência a uma bandeira. Nenhuma ideologia é maior que a verdade. Nenhum partido é maior que o amor. Nenhuma causa merece que você perca a capacidade de ver o ser humano que está na sua frente.

Os convites para a guerra estão sendo distribuídos a todo instante, nas redes, nas mesas de jantar, nos grupos de família. Você não precisa aceitar nenhum. Não porque seja indiferente ao que acontece no mundo, mas porque escolheu se estabelecer na paz como ponto de partida, não como destino distante. Uma única pessoa desperta é capaz de mudar o clima de uma sala, de uma família, de uma comunidade, muito mais do que mil pessoas movidas pelo ódio.

O mundo precisa de pessoas que lutem sem odiar, que discordem sem desumanizar, que se posicionem sem se perder. Essa é a prática mais difícil e mais urgente do nosso tempo.

Namastê
Sri Prem Baba